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domingo, 7 de abril de 2013

Jiro sonha com Sushi (2011)


Eu fazia pouca idéia do que estava para acontecer assim que apertasse o play. Os porquês não importam. Desencantos de sempre. Mas é tão... difícil encontrar um filme que, ao subir dos créditos, dê ao espectador a certeza de ter visto algo grande. Que o faça fechar os olhos com os globos levemente voltados para cima, querendo se revirar em nirvana, e soltar um suspiro daquela satisfação tão menor, mas tão mais encantadora que o mais poderoso orgasmo.

Umami.



"Jiro sonha com Sushi" não é construído em forma de orquestra. É, em si, uma orquestra, ou coisa superior. Transcende a mundanidade fílmica e se torna algo de luz, pairando sobre todas as artes. É assim, tão bom. Declara-se, lá para seu terço final, que comer os sushis do mestre Jiro é como escutar a uma orquestra. Parafraseio: assistir a "Jiro..." é comparecer a uma orquestra, e uma magistral. O espectador incrédulo que se arrisque a comprovar e... aperte o play. O maestro sobe ao palco e arregaça as mangas, a batuta tremulando ansiosa na mão. Daí, outra mão, fazendo deslizar as portas do estabelecimento às escuras. Os músicos estão ali, nalgum lugar, mas não fazem barulho enquanto põem os intrumentos no colo e os dedos na corda. De novo, a mão; liga um interruptor. Lá está o restaurante: diminuto, insuspeito, impecável. Quase uma metáfora do território japonês. A narração de Jiro, logo após, só pode ser as palavras de cumprimento do maestro. A tela esbranquece e a música explode (não começa, explode!). Daí para frente, é o sentar em uma poltrona que mais parece montanha-russa.

"Jiro...", assim como a maioria dos documentários que vi nos últimos anos e aprovei com dois polegares firme e freneticamente para cima, é um filme sobre paixão extrema, cometimento espartano e arte. Arte pouquíssimo habitual, diga-se. É ótimo que os documentaristas independentes atuais estejam firmes em perscrutar aquilo que dispensamos como pequenas excentricidades, sejam games indie ou sushis. "Jiro..." é uma construção (quase) impecável sobre a culinária (cuja classificação como arte deixo aos escolares) e seu "subgênero", por assim dizer, a preparação de sushis. Fenomenal o esmero da equipe técnica, em especial as de design de som e fotografia, e tão mais impressionante o foco de laser do filme com seu aparentemente pequeno tema, que por tantas vezes joga armadilhas de distração - todas evitadas. O brilho maior desta estrela, não obstante, fica com o próprio chef, senhor Jiro, sua equipe e, vale arriscar, todo o povo japonês.

 O filme transborda paixão. E firmeza. Seu mundo é retratado com a delicadeza de uma câmera de Terrence Malick (não se iludam; estou aqui elogiando a cinematografia do indivíduo, e NADA mais), mas o espectador não é induzido à crença de que se trata de um conto de fadas, longe disso. A severidade exalada de todas as estruturas (petreamente desenhadas, lisas, com formas e curvas homogeneizadas de maneira insana), comidas (cada aparição de um novo sushi é um estalo na língua e nos olhos) e pessoas. Estas, nos curtos 81 minutos que a edição final as legou, ensinam mais sobre a vida e ética de trabalho do que o espectador poderá encontrar em qualquer outro canto ou forma artística. Jiro é uma figura cuja afabilidade vive acobertada por uma camada de austeridade; suas lições, idem.

A primeira vez que ouvi a expressão "morde e assopra" foi numa aula de geografia, discutindo as táticas de guerra norte-americanas contra o Japão na Segunda Grande Guerra. Contra o Japão, que coincidência. "Morde e assopra", ou melhor, "assopra e morde" é o tom deste documentário. Quando nos é apresentada uma moral com a qual concordamos, e muitas vezes de que gostamos, logo após as consequências de sua aplicação são destrinchadas numa oratória tão rígida quanto fluida (inacreditável como todos os japoneses entrevistados falam com a eloquência de grandes atores, levando-me a desconfiar de que eles treinaram muito antes de se expor às câmeras).

Por exemplo: ouve-se um "encontre sua paixão e siga-a", o que está bem de acordo com nossas fantasias de ocidentais capitalistas. Logo após, entretanto, vê-se o que é necessário para seguir o sonho e, principalmente, mantê-lo. Aí, muitos recuam. Tome-se Jiro, ora, como exemplo: o chef mais idoso do mundo a manter a raríssima pontuação de três estrelas no Guia Michelin, esse mestre do sushi tem 85 cinco anos e trabalha dia e noite, sem finais de semanas ou feriados e muito menos plano de aposentadoria. Para ele, estar longe do restaurante é uma agonia. Permanecer em casa com os frutos de uma aposentadoria bem ganha é uma idéia que faz suas sobrancelhas inconscientemente se curvarem de medo, e nem o sono é capaz de separá-lo do trabalho: no império da escuridão, o mestre se ergue da cama e corre para o bloco de anotações mais próximo, pois acabou de sonhar com uma nova receita. Para ele, não existe "o melhor", apenas melhor e melhor e melhor, até que, ao fim da vida, possa suspirar pelo alívio de nunca ter desistido de alcançar a perfeição.

Jiro anda de um lado ao outro do restaurante dando ordens com os olhos (pois, como todos os japoneses da película, ele é homem de poucas palavras), uma expressão compenetrada no rosto e um jeito distante daqueles que guardam muitos segredos. O grande cozinheiro nunca parece feliz ou cansado ou triste, somente bravo. São coisas bonitas e assustadoras de se contemplar.

De sua filosofia, extraio o seguinte e mais impactante trecho de seus depoimentos:

"Quando eu estava na primeira série, meus pais me falaram: 'você não tem mais casa para onde voltar. Por isso, é melhor trabalhar duro.' Eu sabia que estava por conta própria, mas sabia também que não queria dormir debaixo de uma ponte ou num templo budista, então eu tive que trabalhar para sobreviver. Essa é uma lição que até hoje não me deixou. Eu trabalhava até que os chefes me pusessem para fora aos pontapés ou tapas. Hoje, os pais dizem aos filhos: 'Você pode retornar se as coisas não derem certo.', e é por dizerem essas coisas estúpidas que suas crias se tornam um fracasso."

Para se comer no restaurante de Jiro, um estabelecimento minúsculo localizado num canto obscuro de uma estação de metrô de Tóquio - o mesmo local desde sua fundação, é preciso de um a três meses de antecedência. Cada refeição, cujo tempo de consumo não ultrapassa quinze minutos (longo, na opinião do crítico culinário entrevistado), supera os 300 dólares. Não há aperitivos ou complementos, somente opções muito limitadas de bebidas, muito menos espaço para mais que um punhado de pessoas, fazendo da criação de Jiro um pequeno templo de silêncio e apreciação. O sushi dessa minúscula lojinha numa estação de metrô japonesa é a razão pela qual milhares de fanáticos por comida atravessam largos oceanos. Servidos os pratos, o espectador se pergunta o quão de exagero há em tudo aquilo. Ora, é sushi, uma de nossas comidas menos favoritas, e um sushizinho tão simples que leva a pensar que qualquer um com duas mãos, um prato de arroz e peixe no freezer pode fazer igual.

Para mim, a prova da magia deste documentário está não apenas na subversão dos preconceitos, mas na constante sensação de água na boca, no desejo intenso de - céus! - comer o bendito sushi! A simples idéia de pagar milhares de dólares por uma passagem e uma refeição, por um instante, me pareceu sensata. "Jiro..." é uma espécie de hipnose que captura por todos os sentidos, mesmo o paladar e o odor. É um filme com som, luz, cheiro e sabor. O brilhantismo da parte técnica, que talvez devo atribuir ao comprometimento da Magnolia Pictures com o teor artístico de suas produções, está além de descrição. Afortunadamente, assisti à obra em HD, e só posso dizer que a qualidade da fotografia é inacreditável, quase todas cenas capturadas com uma bem-sucedida visão artística. São múltiplas as técnicas de edição, mas todas simples e conservadoras, sem os exibicionismos irritantes de algum diretor-pivete recém formado por uma Ivy League. O manejo da câmera, como dito, é digno de Terrence Malick, mas a experimentação comete algumas gafes, como a repetição demasiada de um movimento em particular (a câmera, em slow motion, recua da parte inferior de uma "cesta" de comida).

Jiro & CIA são personagens tão espetaculares que desviar deles a atenção seria um pecado, mas este é um filme virtuoso. Por vezes temi que os cineastas dessem ouvidos às seduções da serpente narrativa e tentassem "engrandecer", inflar a temática com tecnicismos (explicar detalhadamente o mundo da culinária) ou alertas ambientalistas (transformar-se em propaganda sobre a pesca consciente), mas foram todos falsos alarmes. É certo que a breve parte em que Jiro revisita amigos do interior parece deslocada do teor geral, mas, como dito, foi um breve lapso de consciência. O equilíbrio mantido pelo roteiro entre a figura central (Jiro) e os coadjuvantes é exemplo de maestria no fazer documental. Imagino uma simples rede ferroviária, onde Jiro é a estação central e aqueles ligados a seu restaurante são as estações menores. A locomotiva fílmica parte dele e visita uma estação, para depois retornar a Jiro e partir para outra, sucessivamente até que o percurso esteja elegantemente explorado. "Jiro sonha com Sushi" nunca é um filme de Jiro apenas, e o próprio mestre expressa a aprovação para que não seja (último quarto do filme).

Som e imagem pautam a obra, pois as narrações são poucas e curtas. A firmeza de caráter, a humildade e a visão profunda da vida, aparementente inatas em todo cidadão-médio japonês, marcam depoimentos cujo poder resiste por mérito próprio - se escritas e lidas num papel, seu impacto seria o mesmo. A auto-conciência e o senso de responsabilidade de cada figura retratada são inabaláveis perante suas emoções; sob chuva ou sol, na saúde ou na doença, todos sabem o correto a se fazer... e o fazem. Mais tocante é a situação do filho mais velho de Jiro, uma pessoa oprimida pela responsabilidade de suceder uma lenda japonesa ("Ele precisa fazer um sushi duas vezes melhor para chegar aos ombros do pai") e talvez (não há como saber) amargurada por não ter realizado os sonhos de infância (tornar-se piloto de Fórmula 1), mas sempre diligente e fiel à filosofia e desígnios paternos. São coisas que não fazem sentido perante olhos ocidentais. A despeito da economia morosa e da história imperialista (típica de povos orgulhosos e fimes), há muito que devemos (enfatizo: DEVEMOS) aprender com os japoneses. e assistir a "Jiro sonha com Sushi" é uma ótima forma de começar a lição.

A duração de "Jiro..." é seu maior defeito - o filme poderia durar outra hora e não seria cansativo (falo sem exageros aqui) - e uma de suas provas de sucesso, pois os oitenta e um minutos se passam como quinze. Como uma criança que começa a se entusiamar com o brinquedo, senti a mesma angústia revoltada quando vi este brinquedo sendo tomado de minhas mãos. "Jiro..." não devia ter acabado tão cedo. Da mesma grandiosa maneira com que se iniciou, o encerramento é digno do ato final da Nona de Beethoven. O último shot, desarmador como um abraço de criança ou as carícias de um filhote: Jiro no metrô, pensativo, sorri. E sabemos que sua vida está realizada.


Encontre esta crítica também em: http://cine-eterno.blogspot.com.br/2013/04/critica-jiro-sonha-com-sushi.html#more

7 comentários:

  1. Excelente post Diogo, muchas gracias por compartirlo. Te quiero invitar a mi nuevo Blog de Cine de Terror que seguramente te gustará, espero tus comentarios en:
    http://terror-en-el-cine.blogspot.com/

    Un gran saludo, Oz.

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  2. Parabéns pelo seu blog.
    Estou sempre de olho e eu gosto muito!
    Abraço a todos.

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  3. Boa tarde.. coloquei esse filme na minha lista e o comentarei em meu site também.. troquemos links e nostícias. ideias e tudo mais. gostei de seu comentário de tempos modernos também.. abraço

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  4. Ótimo seu blog
    você poderia fazer uma análise do filme
    Man of steel(O homem de aço)
    e tmb do Iron Man 3

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  5. Adorei o texto e a dica. Só preciso encontrar tempo para vê-lo. Um abraço...

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