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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Homem de Palha (1973)



Não é a toa que O Homem de Palha, do diretor Robin Hardy, é tido hoje como um dos maiores cults do gênero suspense. Idealizado pelo roteirista Anthonny Shaffer, o filme foi concebido desde o início como uma revitalização para o gênero, que já se encaminhava para a escassez de ideias que se faz tão presente nos dias de hoje. A ideia de Shaffer era criar um projeto que se desvirtuasse do que os estúdios Hammer (de onde surgiram outros filmes cultuados como Frankstein, Drácula, O Lobisomem, entre outros) vinham realizando desde o começo da década de 70. Disposto a criar algo mais ousado e fora do convencional, Shaffer buscou sua inspiração nos costumes das religiões pagãs e em seus rituais de sacrifício que visavam alcançar fartura e inspiração. Assim nascia um dos filmes de terror mais chocantes e emblemáticos da década de 70.

E todo o processo de desenvolvimento de O Homem de Palha não foi dos mais fáceis.  Tanto Shaffer quando o diretor Robin Hardy encontraram sérios problemas durante a produção e durante todo o andamento da distribuição da película. E mesmo sendo lançado no mesmo ano em que o mundialmente conhecido O Exorcista chegava às telonas e atraia multidões aos cinemas, todo o esforço dos realizadores parece ter valido à pena, já que o filme obteve uma ótima recepção do público, além de elogios por parte da crítica especializada. Foi a prova de que, com um pouco de ousadia e entusiasmo, o público está sempre pronto para aceitar novas ideias.

O filme é, basicamente, um misto entre filme de terror, suspense investigativo e uma corajosa inserção de números musicais durante a projeção. Howard (Edward Woodward), um policial fortemente cristão, é mandado para a costa escocesa, mais especificamente a Ilha Summerisle, à fim de desvendar o desaparecimento de uma garotinha. Aos poucos, Edward vai percebendo a verdadeira natureza dos habitantes do local, que sempre afirmando não saberem de nada, despertam no policial um grande sentimento de desconfiança sobre o que se passa naquela ilha.


Mesmo tendo sido lançado há quase 40 anos, O Homem de Palha ainda preserva sua facilidade em chocar e deixar o espectador perplexo com o desenvolvimento de sua narrativa. Optando por um desenvolvimento lento que, gradativamente, vai deixando nossa apreensão cada vez maior, Hardy cria imagens surreais e impactantes, como a orgia no cemitério ou a dança sensual da personagem Willow (Britt Ekland). Tais momentos bizarros são mesclados perfeitamente com os números musicais do longa, cujas letras evidenciam a devoção dos habitantes de Summerisle aos símbolos fálicos e a valorização da sexualidade sem moralismos. Com elementos fora do usual como estes, Hardy é eficiente na construção do clima de mistério do filme, que a cada minuto vai se tornando mais intrigante e iminente.

Aliás, é visível a preocupação de Hardy nos detalhes da produção, como os figurinos e as locações exóticas, que conseguem ser sedutoras e, ao mesmo tempo, despertam uma sensação de claustrofobia, como se apesar de toda a beleza, aquele local escondesse segredos obscuros por trás de cada porta.

Porém, o elemento responsável pelo reconhecimento de O Homem de Palha no gênero é a proposta apresentada sobre o choque entre religiões e culturas distintas. Edward é profundamente enraizado no catolicismo, e ao se encontrar diante dos hábitos pagãos e peculiares dos habitantes da ilha, o choque do personagem se torna inevitável. Assim, Hardy expõe, porém sem moralismos ou arrogância, sua verdadeira visão sobre as crenças religiosas, que para ele são somente uma união de costumes onde as pessoas buscam conforto e esperança, passando longe do senso de justiça. Mas habilmente, Hardy e Shaffer não permitem que suas visões pessoais imperem sobre o filme, e ao chegarmos no chocante e inesperado desfecho, o filme escancara seu verdadeiro objetivo: uma crítica sobre todas as ações e atrocidades cometidas em nome de um único Deus, e até onde nossas crenças atingem o bom senso.

Assim, O Homem de Palha se encerra de forma pertinente, incômoda, tocando em detalhes que, de certa forma, parecemos ignorar em prol de manter estabilidade em nossas ações. Uma brilhante junção entre terror e crítica social, que até hoje permanece como um autêntico clássico, sendo mais que merecida sua descoberta para o público atual.

Nota: 8.0



4 comentários:

  1. É um filme que mistura bem religião, moralismo e até sedução, superior a fraca refilmagem com Nicolas Cage.

    Abraço

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  2. A refilmagem é daquelas típicas releituras que perdem completamente a essência do original, errando em tudo que deu certo anteriormente.

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  3. Esse filme é bizarro e com uma sensação de estarmos vivendo um pesadelo. A cena final é um primor de bizarrice. Súplica de um lado e comemoração do outro. Um conflito entre o cristianismo do policial e o paganismo vivenciado pelos habitantes da ilha. A trilha sonora é sinistra, mas bem interessante.

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