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sábado, 5 de março de 2011

Império dos Sonhos (2006)

Império dos Sonhos é, assim como 90% dos filmes do cineasta David Lynch, uma obra dotada de uma linguagem surrealista e uma narrativa onírica, porém o que difere este projeto dos demais da carreira do diretor é por este projeto flertar menos com a exatidão e com a realidade; em A Estrada Perdida e Cidade dos Sonhos (sua obra prima máxima), podemos notar que, mesmo tratando-se de películas surreais, há um pé tocado na realidade, onde podemos tecer uma lógica para os eventos a nos repassados. Já em Império dos Sonhos a dimensão paralela que Lynch atingiu torna-no isento de qualquer explicação palpável, definitiva. Isso porque, a profundidade que o diretor imprimiu aos sonhos, faz do filme em questão uma obra que apura os sentidos de seu espectador, onde a realidade não existe, e provavelmente, nunca existiu.

Império dos Sonhos é o filme mais ousado de Lynch, isso porque, além de capturar única e exclusivamente o abstratismo, o filme foi rodado sem programação, ou seja, as cenas foram sendo montadas pouco a pouco, à medida que iam sendo filmadas, e através da junção de imagens e sons paralelos, resultou numa produção de 180 minutos de projeção, onde os atores são leigos sobre o quem (ou o que) estão interpretando, e o cineasta entrega-se a seu próprio mundo de devaneios. Certamente, por se tratar do trabalho mais difícil de um diretor de trabalhos difíceis, Império dos Sonhos é uma experiência única, seja para o bem ou para o mal, pois é crível que, mesmo sendo bastante controverso entre opiniões de público e crítica, David Lynch é com certeza um dos diretores mais corajosos dos últimos tempos, pois não são todos os cineastas que se dispõem a criar obras a seu próprio gosto e autoria (e voltando-a para públicos específicos), e com isso ficar vulnerável a ataques e a críticas negativas. 

1. Não entender uma coisa significa ser esta ruim?

2. Porque as pessoas condenam aquilo que não entendem?


Essas perguntas podem ser atribuídas aos trabalhos de David Lynch, pois, gostando ou não, ele consegue tornar cada filme seu diferente do convencional, e com isso quebra os padrões impostos pelos conformes de Hollywood. Talvez seja por isso que Lynch construiu algumas de suas obras para revelar os bastidores deste símbolo cinematográfico; em A Estrada Perdida mostrou o horror que se sucedia por trás da indústria pornográfica, e em Cidade dos Sonhos atacou os “podres” que aconteciam por trás das câmeras, tudo de maneira metafórica e complexa. Império dos Sonhos encerra esta suposta trilogia sobre o mundo do cinema, e não por acaso é quando os sonhos e o surrealismo passam a atingir um grau mais elevado, e por assim dizer, indecifrável.

Mesmo contendo uma estória simples, que consiste em contar a trajetória de uma atriz que ao ser escalada para um filme, descobre ser este uma refilmagem de uma produção alemã que nunca fora findada, esta baseada num conto cigano polonês amaldiçoado, então os dois atores principais, por terem investigado mais afundo a trama, acabaram por ser assassinados. Perturbada com esta revelação feita pelo diretor do longa, a realidade da atriz se vê totalmente distorcida quando percebe que o enredo do filme se encaixa a sua vida pessoal, e pouco a pouco, sua lucidez passa a ser destruída quando ela passa a perder sua própria personalidade para o personagem que está vivendo.

Toda está trama complexa é distribuída com inexatidão pelo cineasta, quando a organização das cenas passa a tornar-se cada vez mais inexistente, como se o público estivesse encarando vários filmes de uma vez só. Mas é necessário ter a ciência que este foi o propósito de Lynch, não fazer sentido e nem articular linearmente os eventos aqui ocorridos, essa tática é controversa, porém deste o princípio sabemos que Lynch não é um diretor comum, portanto os métodos e elementos empregados em Império dos Sonhos são justificados graças ao anúncio que temos de que não se espera nada normal do cineasta, e como sabemos que o filme “nasceu aos poucos” de acordo com cada idéia nova que ele tinha, se espera menos ainda deste.

De todo modo, as obras de David Lynch , definitivamente, são bastante seletivas, e por decorrência a isso seu status e talento perante a sétima arte sejam alvos de divergências opinativas, tanto de público quanto de crítica. Império dos Sonhos é, sem dúvida, uma experiência única (visual e sonora) aos amantes do cinema, tendo gostado ou não da obra, é inegável que se trata de um dos projetos mais peculiares e diferentes que venhamos a assistir, e isso unicamente, já é um mérito incontestável.

Nota: 7.0

Um comentário:

  1. Que delicia este blog recheado de crítica de cinema. Opa!
    Ficando por aqui...e que tal conhecer o Boatos e Afins?
    Tá rolando um super sorteio cultural por lá.

    beijos e bom feriado!

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