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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Festa de Família (1998)



Perto do final da década de 90, o cinema escandinavo apresentou ao mundo uma proposta revolucionária em termos de relacionamento com essa maneira de fazer arte. Os responsáveis por esse “fenômeno” atendem pelos nomes de Lars Von Trier e Thomas Vinterberg, seguidos de outros colaboradores que assinaram embaixo de suas ideias: Susanne Bier, Paprika Steen, KristianLevring e outros. E o nome do movimento foi Dogma 95. A obra inagural desse novo estilo de filmar foi Festa de Família (Festen, 1998), coprodução entre Dinamarca e Suécia que mostrou a que viriam os seus signatários. O filme é um retrato cru das relações familiares, analisadas a partir de uma ocasião festiva, como seu título dá conta de indicar claramente.

A trama do filme começa poucas horas antes da tal festa, que é a comemoração do sexagésimo aniversário de Helge (Henning Moritzen), o patriarca de uma família numerosa. Seus quatros filhos, todos problemáticos, cada qual a seu modo, são convocados para a reunião a ser realizada na mansão do pai. Como se torna perceptível para o público desde o seu começo, aquela reunião inicialmente tafula apresentará desdobramentos cataclismáticos, que culminarão em um sério desequilíbrio naquele clã cuja harmonia era apenas aparente. Vinterberg se debruça sobre a velha temática da “lavagem de roupa suja”, que compreende quase um subgênero dentro das produções dramáticas. O rol de filmes acerca de mágoas que emergem em reuniões familiares só faz crescer, o que deixa entrever que a preocupação do diretor não é com o enredo em si, mas com a apresentação dos pilares do Dogma 95.

Aliás, o movimento merece ter algumas de suas diretrizes explicitadas aqui: filmagens unicamente em locações, sem quaisquer acessórios cênicos, abolição do uso de música, a não ser que ela pertença ao ambiente da filmagem, câmera na mão, com todos os movimentos gerados por essa essa escolha e desenvolvimento em tempo real talvez sejam as suas principais matrizes. Festa de Família, que ganhou para os idealizadores do manifesto o pré-título de Dogma # 1, segue à risca essa cartilha, obviamente por ser o iniciador concreto do movimento. O cineasta se utiliza de todos os meios para conferir um realismo intenso ao enredo, e o consegue, em boa parte, por conta do elenco afiado e completamente à vontade em seus papéis. Naquela família desestruturada, há espaço para todo tipo de discussão, e Vinterberg aposta em uma abordagem crua e visceral dos conflitos que permeiam os membros daquele clã, desviando-se de modo ziguezagueante dos clichês mais caros aos diretores que tratam desse tema.

Durante o aniversário de Helge, os convidados vão se acomodando na enorme casa, e cada um dos cômodos vai servindo de cenário para uma discussão, um embate ou uma cena de sexo selvagem. A câmera sempre posicionada nos ombros confere uma atmosfera documental às imagens que vão sendo captadas, e lhe dá o papel de intrusa silenciosa, que espia cada movimento com a onipresença de quem tem o poder de saber de todas as coisas. Um dos filhos de Helge aproveita a comemoração que reuniu a todos para revelar que foi abusado sexualmente por ele na infância. Por conta disso, Michael (Thomas Bo Larsen), o filho em questão, cultivou um medo imenso da figura paterna, e a emoção represada ao longo dos anos pelo caçula é um dos primeiros índices da eclosão dos atritos que ainda permearão o encontro de todos. O filho mais velho, Christian (Ulrich Thomsen), também apronta suas surpresas, e polariza as ações que ocorrem na festa junto com o irmão mais novo. Seu personagem é um tipo intratável, que não hesita em ser grosseiro com a esposa para reafirmar sua virilidade, é uma nova prova do talento notável de Thomsen como ator.



Thomsen é um dos intérpretes mais conhecidos do cinema dinamarquês - juntamente com Nikolaj Lie Kaas -, que transita com relativa frequência entre as produções de seu país e as estadunidenses. Seu nome figura em filmes como Mata-me de Prazer (Killing me softly, 2002), Duplicidade (Duplicity, 2009) e Trama Internacional (The international, 2009), para citar exemplares hollywoodianos. Entre os longas de sua pátria nos quais esteve, incluem-se duas colaborações com Susanne Bier – Brothers (Brødre, 2004) e Em um Mundo Melhor (Hævnen, 2010) – e Allegro (idem, 2005), de seu conterrâneo Christoffer Boe. Ele é um dos grandes destaques de Festa de família, atraindo muita atenção com sua personalidade problemática, difícil de dobrar. Apesar da condução da trama estar mais focada na forma que em seu conteúdo, Vinterberg não abdica de ser inventivo nesse segundo quesito, e o faz, principalmente, através do personagem rico em possibilidades dramáticas que entregou a Thomsen.

Vários são os destaques do longa-metragem, que cumpre muito bem sua função primordial de apresentar, na prática, tudo o que os idealizadores do Dogma 95 preconizavam. A montagem é outro aspecto que salta aos olhos do público, com seus cortes secos e suas longas tomadas, em que se verifica um misto de parcimônia com tensão latente. Cada fotograma de Festa de Família está impregnado de uma forte verossimilhança, que reforçam a validade do filme como um expositor de gangrenas que podem acometer o seio familiar. Impedido de usar efeitos especiais, o realizador catalisa toda a carga dramática que atravessa as sequências daquele aniversário nos diálogos afiados e cortantes, e na expressão corporal dos atores, que demonstram a envergadura física ideal para cada um de seus personagens, outro trunfo marcante que Vinterberg tem nas mãos.

Apegado a esse cinema de cunho autoral, dissociado de um alcance mediado pela grande distribuição, o diretor exala liberdade criativa para incorporar alguns improvisos à narrativa, sem jamais, contudo, perder as rédeas da história que quer contar. O grande perigo que o filme poderia correr, felizmente, é afastado: ter uma forma inovadora de apresentar uma trama que, por si mesma, não tivesse grande relevância. Aqui, o espectador entra em contato com um retrato vigoroso de uma série de pessoas cuja ligação maior são os laços de sangue, que nem sempre falam mais alto, como em meio a um conflito aberto, por exemplo. Durante o tempo de projeção de Festa de Família, fica patente a sensação de que se está diante de uma profunda diálise dos fantasmas individuais que só ganham força em presença de parentes, a quem tentamos sempre demonstrar força e mudança, mas a quem nem sempre convencemos. Principalmente quando nós mesmos ainda não estamos convencidos dessa força e dessa mudança.

Nota: 8,5



Um comentário:

  1. é um estilo que não me atrai muito, mas boa crítica :) cumprimentos

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