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domingo, 7 de abril de 2013

Jiro sonha com Sushi (2011)


Eu fazia pouca idéia do que estava para acontecer assim que apertasse o play. Os porquês não importam. Desencantos de sempre. Mas é tão... difícil encontrar um filme que, ao subir dos créditos, dê ao espectador a certeza de ter visto algo grande. Que o faça fechar os olhos com os globos levemente voltados para cima, querendo se revirar em nirvana, e soltar um suspiro daquela satisfação tão menor, mas tão mais encantadora que o mais poderoso orgasmo.

Umami.



"Jiro sonha com Sushi" não é construído em forma de orquestra. É, em si, uma orquestra, ou coisa superior. Transcende a mundanidade fílmica e se torna algo de luz, pairando sobre todas as artes. É assim, tão bom. Declara-se, lá para seu terço final, que comer os sushis do mestre Jiro é como escutar a uma orquestra. Parafraseio: assistir a "Jiro..." é comparecer a uma orquestra, e uma magistral. O espectador incrédulo que se arrisque a comprovar e... aperte o play. O maestro sobe ao palco e arregaça as mangas, a batuta tremulando ansiosa na mão. Daí, outra mão, fazendo deslizar as portas do estabelecimento às escuras. Os músicos estão ali, nalgum lugar, mas não fazem barulho enquanto põem os intrumentos no colo e os dedos na corda. De novo, a mão; liga um interruptor. Lá está o restaurante: diminuto, insuspeito, impecável. Quase uma metáfora do território japonês. A narração de Jiro, logo após, só pode ser as palavras de cumprimento do maestro. A tela esbranquece e a música explode (não começa, explode!). Daí para frente, é o sentar em uma poltrona que mais parece montanha-russa.

"Jiro...", assim como a maioria dos documentários que vi nos últimos anos e aprovei com dois polegares firme e freneticamente para cima, é um filme sobre paixão extrema, cometimento espartano e arte. Arte pouquíssimo habitual, diga-se. É ótimo que os documentaristas independentes atuais estejam firmes em perscrutar aquilo que dispensamos como pequenas excentricidades, sejam games indie ou sushis. "Jiro..." é uma construção (quase) impecável sobre a culinária (cuja classificação como arte deixo aos escolares) e seu "subgênero", por assim dizer, a preparação de sushis. Fenomenal o esmero da equipe técnica, em especial as de design de som e fotografia, e tão mais impressionante o foco de laser do filme com seu aparentemente pequeno tema, que por tantas vezes joga armadilhas de distração - todas evitadas. O brilho maior desta estrela, não obstante, fica com o próprio chef, senhor Jiro, sua equipe e, vale arriscar, todo o povo japonês.

 O filme transborda paixão. E firmeza. Seu mundo é retratado com a delicadeza de uma câmera de Terrence Malick (não se iludam; estou aqui elogiando a cinematografia do indivíduo, e NADA mais), mas o espectador não é induzido à crença de que se trata de um conto de fadas, longe disso. A severidade exalada de todas as estruturas (petreamente desenhadas, lisas, com formas e curvas homogeneizadas de maneira insana), comidas (cada aparição de um novo sushi é um estalo na língua e nos olhos) e pessoas. Estas, nos curtos 81 minutos que a edição final as legou, ensinam mais sobre a vida e ética de trabalho do que o espectador poderá encontrar em qualquer outro canto ou forma artística. Jiro é uma figura cuja afabilidade vive acobertada por uma camada de austeridade; suas lições, idem.

A primeira vez que ouvi a expressão "morde e assopra" foi numa aula de geografia, discutindo as táticas de guerra norte-americanas contra o Japão na Segunda Grande Guerra. Contra o Japão, que coincidência. "Morde e assopra", ou melhor, "assopra e morde" é o tom deste documentário. Quando nos é apresentada uma moral com a qual concordamos, e muitas vezes de que gostamos, logo após as consequências de sua aplicação são destrinchadas numa oratória tão rígida quanto fluida (inacreditável como todos os japoneses entrevistados falam com a eloquência de grandes atores, levando-me a desconfiar de que eles treinaram muito antes de se expor às câmeras).

Por exemplo: ouve-se um "encontre sua paixão e siga-a", o que está bem de acordo com nossas fantasias de ocidentais capitalistas. Logo após, entretanto, vê-se o que é necessário para seguir o sonho e, principalmente, mantê-lo. Aí, muitos recuam. Tome-se Jiro, ora, como exemplo: o chef mais idoso do mundo a manter a raríssima pontuação de três estrelas no Guia Michelin, esse mestre do sushi tem 85 cinco anos e trabalha dia e noite, sem finais de semanas ou feriados e muito menos plano de aposentadoria. Para ele, estar longe do restaurante é uma agonia. Permanecer em casa com os frutos de uma aposentadoria bem ganha é uma idéia que faz suas sobrancelhas inconscientemente se curvarem de medo, e nem o sono é capaz de separá-lo do trabalho: no império da escuridão, o mestre se ergue da cama e corre para o bloco de anotações mais próximo, pois acabou de sonhar com uma nova receita. Para ele, não existe "o melhor", apenas melhor e melhor e melhor, até que, ao fim da vida, possa suspirar pelo alívio de nunca ter desistido de alcançar a perfeição.

Jiro anda de um lado ao outro do restaurante dando ordens com os olhos (pois, como todos os japoneses da película, ele é homem de poucas palavras), uma expressão compenetrada no rosto e um jeito distante daqueles que guardam muitos segredos. O grande cozinheiro nunca parece feliz ou cansado ou triste, somente bravo. São coisas bonitas e assustadoras de se contemplar.

De sua filosofia, extraio o seguinte e mais impactante trecho de seus depoimentos:

"Quando eu estava na primeira série, meus pais me falaram: 'você não tem mais casa para onde voltar. Por isso, é melhor trabalhar duro.' Eu sabia que estava por conta própria, mas sabia também que não queria dormir debaixo de uma ponte ou num templo budista, então eu tive que trabalhar para sobreviver. Essa é uma lição que até hoje não me deixou. Eu trabalhava até que os chefes me pusessem para fora aos pontapés ou tapas. Hoje, os pais dizem aos filhos: 'Você pode retornar se as coisas não derem certo.', e é por dizerem essas coisas estúpidas que suas crias se tornam um fracasso."

Para se comer no restaurante de Jiro, um estabelecimento minúsculo localizado num canto obscuro de uma estação de metrô de Tóquio - o mesmo local desde sua fundação, é preciso de um a três meses de antecedência. Cada refeição, cujo tempo de consumo não ultrapassa quinze minutos (longo, na opinião do crítico culinário entrevistado), supera os 300 dólares. Não há aperitivos ou complementos, somente opções muito limitadas de bebidas, muito menos espaço para mais que um punhado de pessoas, fazendo da criação de Jiro um pequeno templo de silêncio e apreciação. O sushi dessa minúscula lojinha numa estação de metrô japonesa é a razão pela qual milhares de fanáticos por comida atravessam largos oceanos. Servidos os pratos, o espectador se pergunta o quão de exagero há em tudo aquilo. Ora, é sushi, uma de nossas comidas menos favoritas, e um sushizinho tão simples que leva a pensar que qualquer um com duas mãos, um prato de arroz e peixe no freezer pode fazer igual.

Para mim, a prova da magia deste documentário está não apenas na subversão dos preconceitos, mas na constante sensação de água na boca, no desejo intenso de - céus! - comer o bendito sushi! A simples idéia de pagar milhares de dólares por uma passagem e uma refeição, por um instante, me pareceu sensata. "Jiro..." é uma espécie de hipnose que captura por todos os sentidos, mesmo o paladar e o odor. É um filme com som, luz, cheiro e sabor. O brilhantismo da parte técnica, que talvez devo atribuir ao comprometimento da Magnolia Pictures com o teor artístico de suas produções, está além de descrição. Afortunadamente, assisti à obra em HD, e só posso dizer que a qualidade da fotografia é inacreditável, quase todas cenas capturadas com uma bem-sucedida visão artística. São múltiplas as técnicas de edição, mas todas simples e conservadoras, sem os exibicionismos irritantes de algum diretor-pivete recém formado por uma Ivy League. O manejo da câmera, como dito, é digno de Terrence Malick, mas a experimentação comete algumas gafes, como a repetição demasiada de um movimento em particular (a câmera, em slow motion, recua da parte inferior de uma "cesta" de comida).

Jiro & CIA são personagens tão espetaculares que desviar deles a atenção seria um pecado, mas este é um filme virtuoso. Por vezes temi que os cineastas dessem ouvidos às seduções da serpente narrativa e tentassem "engrandecer", inflar a temática com tecnicismos (explicar detalhadamente o mundo da culinária) ou alertas ambientalistas (transformar-se em propaganda sobre a pesca consciente), mas foram todos falsos alarmes. É certo que a breve parte em que Jiro revisita amigos do interior parece deslocada do teor geral, mas, como dito, foi um breve lapso de consciência. O equilíbrio mantido pelo roteiro entre a figura central (Jiro) e os coadjuvantes é exemplo de maestria no fazer documental. Imagino uma simples rede ferroviária, onde Jiro é a estação central e aqueles ligados a seu restaurante são as estações menores. A locomotiva fílmica parte dele e visita uma estação, para depois retornar a Jiro e partir para outra, sucessivamente até que o percurso esteja elegantemente explorado. "Jiro sonha com Sushi" nunca é um filme de Jiro apenas, e o próprio mestre expressa a aprovação para que não seja (último quarto do filme).

Som e imagem pautam a obra, pois as narrações são poucas e curtas. A firmeza de caráter, a humildade e a visão profunda da vida, aparementente inatas em todo cidadão-médio japonês, marcam depoimentos cujo poder resiste por mérito próprio - se escritas e lidas num papel, seu impacto seria o mesmo. A auto-conciência e o senso de responsabilidade de cada figura retratada são inabaláveis perante suas emoções; sob chuva ou sol, na saúde ou na doença, todos sabem o correto a se fazer... e o fazem. Mais tocante é a situação do filho mais velho de Jiro, uma pessoa oprimida pela responsabilidade de suceder uma lenda japonesa ("Ele precisa fazer um sushi duas vezes melhor para chegar aos ombros do pai") e talvez (não há como saber) amargurada por não ter realizado os sonhos de infância (tornar-se piloto de Fórmula 1), mas sempre diligente e fiel à filosofia e desígnios paternos. São coisas que não fazem sentido perante olhos ocidentais. A despeito da economia morosa e da história imperialista (típica de povos orgulhosos e fimes), há muito que devemos (enfatizo: DEVEMOS) aprender com os japoneses. e assistir a "Jiro sonha com Sushi" é uma ótima forma de começar a lição.

A duração de "Jiro..." é seu maior defeito - o filme poderia durar outra hora e não seria cansativo (falo sem exageros aqui) - e uma de suas provas de sucesso, pois os oitenta e um minutos se passam como quinze. Como uma criança que começa a se entusiamar com o brinquedo, senti a mesma angústia revoltada quando vi este brinquedo sendo tomado de minhas mãos. "Jiro..." não devia ter acabado tão cedo. Da mesma grandiosa maneira com que se iniciou, o encerramento é digno do ato final da Nona de Beethoven. O último shot, desarmador como um abraço de criança ou as carícias de um filhote: Jiro no metrô, pensativo, sorri. E sabemos que sua vida está realizada.


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domingo, 10 de março de 2013

Rapidinhas #1



Esse é um novo quadro para o Cine Eterno que as circunstâncias me forçaram a criar, e ao qual espero não ter que recorrer com freqüência. Caros leitores (e, claro, caro chefe), é necessária uma certa dose de cara-de-pau para alguém se dizer crítico e cinéfilo e já ter passado três semanas sem assistir a um único filme (trechos no YouTube não contam, só pra deixar claro). Mas eu sou cara-de-pau. É de família. Meu pai costuma se vangloriar que, toda vez quando faz a barba, cai serragem. Mas não é apenas pela maldita genética (e criação também!) que me desculpo; também é por matéria de prioridades. Não irei me alongar aqui em assuntos pessoais, que para vós são tão interessantes e relevantes quanto um urubu sendo sugado pela turbina de um Boeing 747 em plena decolagem... ou quanto ao último paredão do BBB (afinal, a edição deste ano ainda está no ar ou já acabou?).

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domingo, 10 de fevereiro de 2013

À Procura da Felicidade (2006)


À Procura da Felicidade” é um filme clichê, mas esse não é nem de longe seu único pecado. Ele é previsível, melodramático, criativamente inócuo e tão satisfeito na sua zona de conforto que também pode ser chamado de covarde. Num trecho de dez minutos é possível extrair mais chavões motivacionais do que em todo um best-seller de auto-ajuda! Se eu quiser descer ao nível “Eufrazino Compra-Briga”, poderia argumentar que sua mensagem, por baixo da finíssima camada superficial, é moralmente perigosa. Mas que se dane: eu gosto desse filme. Não me desculparei tentando classificá-lo como um “guilty pleasure”, o que ele não é. Não consigo imaginar um humano com a mente sã ou o coração no devido lugar que ao menos não se simpatize com o que vê na tela, apesar de tantos apesares. O motivo é simples: “À Procura...” mexe com os instintos humanos muito além do que sua razão - sua pobre coitada e sempre secundária razão - pode refrear. É como um filhotinho de leão que, por um motivo qualquer (e pelo amor desta metáfora), acaba parando na porta de sua casa, como um bebê abandonado. Você sabe que não pode criá-lo. Sabe que ele crescerá e que 1) destruirá sua casa ou 2) fará de você uma refeição, e depois destruirá sua casa. Mas então você vê aquela linda carinha de filhote, aqueles olhinhos negros no meio daquela carinha peluda e diz: que se dane! Vou criar este filhotinho!

Pois eu, do mesmo modo, irei aprovar este filme.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Django Livre (2012)



Tarantino é um artista fascinado pela vingança: em “Kill Bill”, acompanhamos uma exímia lutadora de kung fu se livrar da gangue de criminosos que arruinaram sua vida; em “Bastardos Inglórios”, vemos um grupo de judeus fazendo com os nazistas aquilo que meio-mundo sempre quis fazer, e um psicopata misógino prova um pouco do próprio veneno pelas mãos de um grupo de mulheres aventureiras em “À Prova de Morte”. Mesmo quando aparece apenas de figurante, a vendeta deixa sua marca forte em qualquer película tarantinesca (“Eu vou usar métodos medievais em seu traseiro!”). Agora, com “Django Livre”, ela encarna o ex-escravo homônimo transformado em caçador de recompensas, cujo dever é basicamente “matar brancos e ser pago por isso”.

Arrisco-me a dizer que “Django” exercerá, quanto ao tema, muito mais apelo a muito mais pessoas do que qualquer outro filme de Tarantino. Se uma aventura “kung-funesca” de vingança feminina ou mesmo de ódio ao nazismo são elementos limitados (nem todo mundo se importa com as loucuras da Alemanha ou com as atrocidades de sua imitação barata de Bonaparte, o Hitler), a escravidão – especificamente a promovida pelo branco europeu – mostrou sua face horrorosa em quase toda nação não-européia do mundo. Nós brasileiros, então, estamos acostumadíssimos com esse tema e, da mesma forma que muitos judeus se imaginam estraçalhando Hitler com uma saraiva de tiros de metralhadora, nós sempre nos deliciamos com a idéia de um negro (ou um grupo de negros) se voltando contra seus senhores e açoitando-os no mesmo pelourinho em que eles eram antes castigados. Nossa idolatria a Zumbi dos Palmares está aí para provar.

Sim, a história se passa nos EUA e se centra na escravidão norte-americana (muito mais horrenda que sua contraparte brazuca – não se deixem enganar pelas imbecilidades românticas e coloridas de “...e o Vento Levou”), mas o efeito é o mesmo. Portanto, será que entrega aquilo que nosso revanchismo histórico tanto deseja? Honestamente, eu não sei. Se levarmos em conta a mera contagem de cadáveres brancos, não resta dúvida que sim. Mas se a inserirmos no contexto da relevância artística, aí o resultado é muito menos empolgante do que a premissa ou os trailers deixam parecer. Pois é, eu não adorei Django; gostei com reservas. Para alguém que esperava um grande avanço desde o quase perfeito “Bastardos...”, a decepção não foi pouca: “Django Livre” está muito mais próximo dos filmes experimentais e irregulares de Tarantino (“Jackie Brown”, “Kill Bill – Vol. 2”, “À Prova de Morte”) do que de suas obras-primas maduras e avassaladoras (“Cães de Aluguel”, “Pulp Fiction”, “Kill Bill – Vol. 1” e “Bastardos Inglórios”). Terei umas boas páginas para explicar minha visão (e tentar aplacar a ira das sempre presentes tarantinetes), mas aproveito logo para resumir: “Django” sofre com um Tarantino auto-indulgente, descontrolado (ou melhor: excessivamente afoito) e quase previsível, como se fosse uma paródia de si mesmo.

“Chocolate é bom, mas demais enjoa.” Desde que despontou, Tarantino se tornou o objeto “homenageado” preferido de cineastas amadores, cuja ignorância da verdadeira essência tarantinesca os limita a entulhar seus filmes com referências pop desenfreadamente e se esquecer de contar uma história original. Eu diria que “2 Coelhos” sofre do mesmo problema, mas não creio que seu diretor tivesse apenas Tarantino em mente quanto produzia a obra – os fãs do filme é que são particularmente insuportáveis (cada vez que alguém diz que “2 Coelhos” é melhor que um filme de Tarantino, um cinéfilo vira homem-bomba e explode um multiplex lotado). Agora, novamente, parece que o próprio diretor perdeu o tato com a produção e termina se parodiando, entregando-nos aquele que talvez seja seu filme mais lotado de referências, homenagens e elementos pop (pois é, batendo mesmo o escandaloso “Kill Bill – Vol. 1”) e um dos menos impressionantes em termos de narrativa. É um contraste bem visível se você compará-lo com seu brilhante antecessor, “Bastardos Inglórios”.

No “European spaghetti” de Tarantino, acompanhamos três narrativas diversas (Shosanna, os Bastardos e Coronel Landa) que lentamente se convergem em um final inimaginável e bombástico. O mais estranho é que a obra não lança mão de twists forçados ou de um ritmo frenético para fazer cair o queixo da audiência: é tudo uma gradação tão calma e paciente que, quando atinge o clímax, nada mais resta à platéia senão o atordoamento. Cada núcleo dramático, não obstante, possui elementos únicos sobre os quais os personagens dos demais núcleos são ignorantes e, como num quebra-cabeças, o produto final só é completo com a união dessas partes distintas. Efetivamente, temos três grupos que, desconhecendo as trajetórias uns dos outros, caminham inexoravelmente para um desfecho quase kármico. E conseguir juntar tudo isso com uma homenagem sincera ao poder do cinema, cenas longérrimas (o bar nazista) e cultura popular é simplesmente coisa de gênio.

“Django Livre”, por sua vez, foca-se em um único personagem – seu protagonista –, trás uma narrativa linear e uma história muito menos ambiciosa: Django é liberto, passa algum tempo como caçador de recompensas (e a maior parte é retratada através de montagens), parte em busca da ex-mulher ainda escravizada, enfrenta alguns problemas com o vilão sádico que a “possui”, mas, no fim, consegue o que quer. Um tanto frustrante para quem saboreara a grandeza de filmes como “Bastardos...” ou “Cães de Aluguel”. Ora, mas “Kill Bill – Vol. 1” talvez seja ainda mais simples do que isso e eu a considero uma das grandes obras de Tarantino. Como é que pode ser?

Aí é que está: o primeiro “Kill Bill” pode ser diminuto, mas é consistente e faz um uso sábio de sua duração. “Django Livre”, por outro lado, é instável e inseguro. Se aquele era um mosaico pop assumido, este tenta ser várias coisas ao mesmo tempo e vira um poço de contradições: é uma história simples contada de forma grandiloqüente, um western típico embrulhado com referências contemporâneas (há até rap na trilha sonora!), um enredo linear que insiste em quebras desnecessárias de cronologia, etc. Não poucas vezes eu tive vontade de pular ou adiantar algumas cenas de valor puramente estético para continuar com a bendita história. E se “Pulp Fiction” conseguiu amarrar todos aqueles núcleos dramáticos com onze minutos a menos, o aproveitamento da duração em “Django Livre” fica próximo do de “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada”.

Mesmo estilisticamente Tarantino, excitado demais para escolher apenas um tom, resolve jogar todo seu conhecimento enciclopédico no filme em detrimento da consistência. Por exemplo, peguemos a longa viagem de Django e King Schultz ao lado de Calvin Candie: neste exageradamente longo trecho de película (foi como se Tarantino quisesse levar a platéia a passeio, e me surpreendo por ele não ter incluído o trajeto inteiro em tempo real) eu perdi a conta de quantas trilhas sonoras diferentes o diretor usou (no mínimo, quatro – e duas em menos de dois minutos, ao final). Noutro momento, ele resume a vida de Django como caçador de recompensas em uma montagem pouco inspirada, que termina com um texto expositivo em créditos ascendentes e é cortada para uma exagerada introdução de Mississipi, em letras garrafais cruzando a tela da direita à esquerda. Esse descontrole “pop” seria perdoável (e desejável) em “Kill Bill - Vol. 1”, que era uma bagunça por natureza, mas em “Django” ele provoca um desagradável contraste.

Outro exemplo, e bem mais grave: durante o ataque da nascente Ku Klux Klan, o diretor inicia a cena com um plano dos membros galopando em direção a Django e Schults, e depois a corta para o passado e retrata o grupo ainda se organizando (e discutindo alguns problemas de “figurino”). Logo depois, retorna a onde parou, no “presente”. Tarantino pode ser famoso por suas quebras de cronologia, mas aqui os cortes são confusos e desnecessários, pois se trata de uma narrativa estritamente linear. Além do mais, eles se dão em cenas muito curtas e diversas e envolvem pouquíssimo espaço de tempo, deixando claro que o diretor está preterindo a concisão em nome do exibicionismo estilístico – algo bem grave para alguém que praticamente reinventou a técnica. Ainda na mesma cena você perceberá que ele faz uso de um humor pastelão que beira o infantil. O filme retrata os membros da KKK como patetas incapazes de fazer dois furos em um pano, o que não seria um problema caso, mais uma vez, não divergisse absolutamente do teor da obra. Mesmo o diálogo é bastante inferior ao que estamos acostumados com alguém do porte de Tarantino, e eu não sabia se estava achando um tanto de graça ou tentando esconder minha vergonha-alheia com alguns risinhos amarelos.

E toda esta cena, aliás, é inútil. Poderia ser descartada do filme sem qualquer prejuízo para o enredo ou o desenvolvimento de seus personagens (ela basicamente nos ensina que Django pode atirar a longa distância. Só.)

Como se a irregularidade da direção e do próprio enredo não fosse coceira atrás da orelha o suficiente, alguns dos momentos mais climáticos da obra copiam elementos de “Bastardos Inglórios”, pondo em xeque suas pretensões de originalidade. Quando Schultz elimina um dos antagonistas do filme, precedendo um grande tiroteio, o método por ele usado é quase idêntico ao que os Bastardos vestidos de garçom usaram para neutralizar os soldados nazistas nas portas do cinema, e o desfecho que Django dá a Candieland é muitíssimo similar a um dos desfechos de “Bastardos Inglórios”. Tarantino sempre se orgulhou de roubar (e ele usa exatamente este verbo) elementos de outras obras e de lucrar com o resultado (daí o apelido de “Diretor DJ”), mas fazer isso com as próprias obras não dá certo e instila no público um senso de tapeação.

Apesar de acumular problemas, ainda estamos falando de um filme de Tarantino. Ou seja, quando ele acerta... céus, como acerta! Há cenas aqui tão bem escritas (e tão bem distribuídas) que, a cada ameaça de tédio pelo ritmo inconstante, nosso humor é renovado pelas lufadas de genialidade do diretor. A discussão entre Candie, Schultz e Django na Casa Grande de Candyland é o equivalente do filme à cena do bar em “Bastardos...”: lenta, construtora de formidável tensão e se concluindo com a revelação inesperada de um segredo (pensando bem, creio que esta é mais outra autocópia do diretor - que feio!). Minha favorita é, de longe, a chegada de Schultz e Django em sua primeira cidade - seguida de uma hilária (e brutal) contenda entre ambos e o xerife do lugar. E, apesar das vacilações ocasionais, o humor deste western é afiadíssimo, talvez o segundo melhor da carreira de seu criador (não tem como superar “Kill Bill - Vol. 1” e seus membros cortados que jorram sangue com mais força e volume do que uma mangueira de bombeiro). Christopher Waltz encarna o gentil e ácido King Schultz com perfeição e supera DiCaprio em sua interpretação do estereotipicamente perverso Calvin Candie - talvez eu tenha gostado mais do vilão se ele tivesse passado mais tempo em tela ou tivesse cometido atos de verdadeira brutalidade. Pois é, da mesma forma que Django, um escravo sendo comido vivo por cachorros foi pouco impressionante.

E há mais um elogio que nunca imaginei que faria: dou meus parabéns à dublagem brasileira, que apresenta um trabalho de altíssimo nível. Por causa de circunstâncias infelizes não pude assistir à película legendada - e ainda recomendo que essa seja a prioridade de qualquer cinéfilo - e tremi, naturalmente, diante do que a típica incompetência de nossos dubladores poderia fazer com o filme - justamente um filme de Tarantino! Qual não foi minha surpresa ao ver que tudo saíra ok - na verdade, bem mais do que ok. É impressionante a conservação do linguajar culto e pomposo do doutor Schultz e das divagações pseudo-científicas do desprezível Candie (espertamente traduzidas como “crioulogia”). É um alívio tremendo finalmente ouvir palavrões em abundância, com inúmeros “c#ralhos”, “p#rras” e “p#tas” transbordando das bocas dos personagens como uma gloriosa cascata de profanação. Sim, algumas piadas foram inevitavelmente perdidas (eu fui o único da sala que riu quando Stephen confundiu o nome de Schultz por “Shitz” - “merdas”, em inglês), mas o esforço geral da tradução foi admirável - o que agora me dá a certeza de que, quando queremos fazer algo direito, não há desculpa para não fazê-lo. O bom trabalho da dublagem me fará ser ainda mais rigoroso com ela: ora, se com “Django” um grande resultado foi obtido, por que continuar tratando tantas outras obras de maneira leviana?

“Django Livre” é mais um exercício de estilo e de homenagem a terceiros do que uma obra firme e independente. Assim como “À Prova de Morte” ou “Jackie Brown” (e em maior escala que ambas), é uma produção divertidíssima, mas não marcante. Suas quase três horas, mesmo já fruto de cortes na pós-produção, parecem infladas e o descompasso de seu diretor nas referências que tanto adora fazer chega a enjoar. “Django” possui bem mais brancos morrendo pela revanche de um ex-escravo do que “Bastardos” possui nazistas nas mãos de judeus, mas é este último que carrega, digamos assim, um maior “índice de satisfação por morte”. A prova cabal de que qualquer coisa, mesmo a melhor coisa do mundo, enjoa quando em excesso.

NOTA: 7,0

sábado, 5 de janeiro de 2013

Detona Ralph (2012)


A idéia com a qual “Detona Ralph” foi concebido - uma aventura no mundo dos videogames, com personagens e franquias reais - seria ótima não fosse o estado das coisas em Hollywood. Meu pessimismo - corrijo: “realismo” - inato guiou-me à opinião contrária: que a animação seria apenas mais um pequeno lixo comercial, com o agravante de profanar personagens queridos do mundo gamer. Fazer o quê. O cinema comercial moderno caminha a largos passos em direção a uma refinaria de esterco, com a exceção de que do esterco nascem coisas boas. Primeiro, trata-se de uma animação solo da Disney, uma empresa já bem distante do brilhantismo de outrora (ah, também guardo ressalvas com a Pixar, que parece ter iniciado seu declínio). Segundo, é sempre mais provável que os produtores (e os da Disney são notoriamente gananciosos, perdendo apenas para os da Twentieth Century Fox) não possuíssem o menor conhecimento ou mesmo gosto por games, usando seus personagens apenas para criar um produto atraente e poderem posar de “moderninhos”. “Vejam, nós fizemos um filme com games! Olha como somos descolados!

Alegrai-vos, cinéfilos: é uma desconfiança não correspondida. “Detona Ralph” é uma homenagem sincera de quem entende e adora games, não um mero produto tentando ganhar uns trocados a mais. Cada referência é bem planejada, cada sacada vai do engraçado ao genial, cada momento em que o Sonic ou o Ryu aparecem na tela é esperto, para leigos como eu, ou verdadeiramente emocionante, para os fãs. Assim, “Detona Ralph” se aproxima de (e, em minha opinião, supera1) “Uma Cilada para Roger Rabbit”, no sentido de reunir grandes nomes de um meio de entretenimento (“Ralph” trás games enquanto “Rabbit” trazia cartoons) em prol de uma história inventiva e - por que não? - um belo fan service. Não fosse o argumento para tais filmes, é provável que tal confluência de personagens (leia-se: royalties) jamais acontecesse. Ora, até hoje Mickey Mouse e o perna-longa nunca mais se encontraram em uma produção oficial. E me diga: em que outra ocasião você verá Chun-Li, Princesa Peach e Zelda2 conversando em grupo, como meninas adolescentes trocando fofocas?

Sim, sim, sim: esse filme é também um paraíso dos detalhes! Em minha última crítica falei sobre a Aardman, uma produtora com atenção imensa às mínimas coisas. Pois bem, aqui a Disney supera a velha inglesa das massinhas, e exponencialmente: se você gosta de procurar easter eggs, prepare-se para um orgasmo nas cenas da Estação dos Videogames - onde MILHARES de personagens agem no background - ou nos momentos em que tenta adivinhar quais são as paródias dos games fictícios criados pela Disney (o “Conserta Félix” se aproxima do primeiro “Donkey Kong”, e o nome “Hero’s Duty” é bem óbvio). E um quarto “sim”: isso é um paraíso para piadas, referências, trocadilhos e quaisquer caraminholas divertidas que puderem ser postas em um bom roteiro.

Roteiro que, aliás, é ótimo, ainda que um tanto complicado para crianças. Não digo que ele seja “inteligente demais” para os pequeninos, não. Ele é mesmo muito complexo, lidando com vários elementos simultâneos sobre os quais mesmo eu, um adulto razoavelmente atento, tive dificuldade de manter a atenção. Não sou de resumir um filme em meus textos (afinal, sinopses existem por um motivo), mas abro uma exceção apenas para mostrar o quadro geral: começamos com Ralph, um vilão bem sucedido mas imensamente insatisfeito com a vida que têm. Também! Ele vive isolado em um lixão e hostilizado pelos companheiros de jogo, que jamais percebem sua importância vital até que ele decide trocar de jogo para ganhar uma medalha de herói. Ele vai parar no “Hero’s Duty”, um shoot-em-all moderno figurando insetos mutantes como inimigos. Após algumas trapalhadas, ele consegue a medalha mas vai parar em outro jogo, o “Sugar Rush” (pense nos games licenciados pela marca “Moranguinho”, só que com mais carisma). Lá, uma menina (que, na verdade, é um “bug”) rouba a medalha, pois esta se parece com uma das “medalhas douradas” necessárias para que ela compita formalmente em seu jogo (afinal, bugs não devem aparecer). Entretanto, Ralph trouxe consigo um dos insetos do jogo anterior, que agora age como um vírus capaz de destruir todo o fliperama. Nesse ínterim, Ralph tem que ajudar a menina a ganhar a corrida para recuperar a medalha e... bem, daí em diante o emaranhado fica tão grande que supera as minhas habilidades de síntese, com direito a uma conspiração entre jogos e várias - eu digo VÁRIAS - reviravoltas!

Roteiros muito entulhados geralmente são indícios de que o roteirista é incapaz de manter uma linha de raciocínio ou de escrever uma história simples. Mas aqui, é uma “bagunça justificada”. A obra maneja seus vários elementos, personagens e plot twists com elegância, jamais se esquecendo do mundo que se propõe a homenagear. O que temos, portanto, é um argumento plenamente justificado e um filme maravilhosamente executado, quase magistral em alguns momentos. Os personagens, que poderiam facilmente cair na estereotipagem, são redondos, surpreendentemente profundos e infinitamente carismáticos. Da heroína durona ao secundário Félix... céus, até mesmo aos figurantes, todos são muito divertidos de se ver e, em última instância, apaixonantes (creio que a Sargento Tamora seja meu mais novo crush fictício - adeus, Alyx Vance). Que exemplo melhor de um personagem bem escrito do que Vanellope, o bug cuja voz e trejeitos tinham tudo para ser insuportáveis, mas que acabam fascinantes?

Sargento Tamora. Err... essa é uma imagem completamente aleatória.

Aqui, devo falar sobre a dublagem brasileira. Assim como em “Os Muppets”, só que em menor grau, a dublagem brazuca é fonte de muitos momentos vergonha-alheia, péssimo timing, pouco realismo ou pura e simples tosquice. Dá um nó no coração ouvir expressões como “A cobra vai fumar” ou “Melou” no lugar de “Oh, boy, shit’s going down” ou “Fuck 3. O problema é potencializado por um roteiro que, na versão original, faz extensivo uso de trocadilhos ou diálogos ágeis levemente nonsense - um terror para os sempre atarefados e afobados dubladores brasileiros. É a coisa mais estranha do mundo ouvir a durona (e forte, e decidida, e delgada, e sexy... ai, meu coração4) Tamora dizendo “Muita gente fica tão cega pelo egoísmo que nunca vê o bicho-papão por perto” (aliás, a personagem é a que tem, na versão brasileira, a maior coleção de one liners bizarros). E ouvir Zangief com um sotaque russo claramente forçado... ah, façam-me o favor!

Na versão dublada, se assiste “apenas” a um grande filme. No original, não duvido que ele se aproxime do nível “excepcional”. De qualquer forma, não foi dessa vez que os dubladores arruinaram mais uma produção, e o resultado continua de alto nível.

Há também muita carga emotiva aqui, e mesmo uma reflexão que, se não chega aos níveis de ouro da Pixar, ao menos é intrigante. Os relacionamentos entre os personagens, especialmente entre Ralph e Vanellope, realmente mexem com o público, ao ponto em que cenas mais pesadas - como quando Ralph destrói o carro de corrida da pequena - DE FATO provocam sentimentos fortes. “Detona Ralph” passa uma mensagem que pouco vemos nas produções infantis atuais, tão ocupadas em papaguear a mesma baboseira de sempre (“ame o próximo”, “aprenda a compartilhar”, etc.). A “moral” central, por trás da igualmente bem trabalhada mensagem de “seja você mesmo”, é como o egoísmo, ainda que motivado por nobres intenções, pode gerar conseqüências catastróficas. Num mundo onde as crianças são quase mini-adultos, é um lembrete muito bem vindo. E não se preocupe: todas essas mensagens são trabalhadas com a sutileza e a naturalidade esperadas dos bons filmes, o que nos leva a desconfiar se a Pixar não teve algo por trás da obra. Ah, sim, ela teve: John Lasseter é o produtor executivo.

Tão nostálgico quanto bem feito, “Detona Ralph” é imperdível. Alia comédia, aventura e graça com uma sentimentalidade que em muito supera a do curta que o precede, o bonitinho (e só) “Paperman”. Talvez a segunda melhor animação de 2012 (os Estúdios Ghibli ganham o pódio, pra variar, com o maravilhoso “Arriety”), essa grande e sincera homenagem aos videogames - um meio artístico5 que já supera o cinema em lucros e, quem sabe, qualidade - nos leva a refletir se estes já não estão ocupando o centro das atenções como a mais nova e badalada expressão artística do mundo. Eu não sei, mas quando os filmes passam a prestar tributos a um meio de entretenimento visto como não mais do que um mero passatempo há poucos anos, é sinal de que os tempos estão mudando. E pra melhor.

NOTA: 8,5


1 Nunca fui um fã da obra de Zemeckis;
2 Não sei bem se era a Zelda, visto que era um detalhe minúsculo de cena, só aparecendo por alguns segundos. Além do mais, não sou expert em games. Quem puder me corrigir, por favor o faça;
3 Sei que a versão original não as usa, mas é só para dar uma idéia;
4 Se é que há uma bizarrice no físico da personagem, essa é o rosto. Os movimentos e os traços são muito similares aos de Cruela Devil, do desenho animado “101 Dálmatas”. Não sei se isso funciona como um turn on ou um turn off;
5 Videogames SÃO arte. Creio não haver mais discussão neste tópico.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Operação Presente (2011)



No mundo da animação, existem ao menos três grandes produtoras cuja necessidade do lucro, ainda que importante, vem depois da inovação, da vontade de criar algo significante para a Arte. São elas a norte-americana Pixar (cujo reinado de qualidade parece ter iniciado seu inevitável declínio), a japonesa Ghibli (insuperável) e a inglesa Aardman. Destes três “tecnopólos da criatividade”, a última apresenta resultados mais imprecisos e, sem dúvida, bilheterias menos generosas. Mas há um espírito genuíno de superação em todas as suas produções, mesmo nas mais malfadas. Pois bem, os negócios da Aardman sofreram um revés após terem pisado no poço de lama financeiro intitulado “Por Água Abaixo” e perdido o protetorado da DreamWorks (imagine se a Pixar tivesse perdido as bênçãos da Disney em seus primeiros anos). Após alguns anos tentando se reerguer financeiramente, os esforçados herdeiros de Peter Lord e Nick Park se aventuraram novamente, com as graças da Sony Pictures Animation, na animação CGI (contra a tradição stop motion da empresa) e, como resultado, construíram o mais novo clássico natalino e talvez o melhor desde “O Estranho Mundo de Jack”.

Não que a qualidade, mais uma vez, tenha apresentado bilheteria proporcional. “Operação Presente” sofreu com um marketing doloroso (seu primeiro teaser vendia a batidíssima idéia de uma revisitação moderna do Natal) e colheu lucros aguados. Na verdade, este talvez seja um dos filmes de Natal mais esnobados e desconhecidos das últimas décadas (e olha que a lista é particularmente longa) – eu mesmo só o assisti um Natal DEPOIS de seu lançamento – tudo por causa da sofrível divulgaçãom que passa a idéia de mais um filme natalino de segunda. Aprendam, crianças: marketing importa.

A verdade que poucos, infelizmente, sabem é que “Operação Presente” é o melhor, mais complexo e profundo filme da Aardman, rivalizando com a Pixar em seus melhores dias e aspirando de tal modo à delicadeza e simplicidade ghiblianas que mesmo Miyazaki balançaria a cabeça em satisfeita aprovação. Sim, ele é muito bom. Impressiona-me como a Aardman finalmente aprimora o seu (finíssimo) humor descompromissado e produz um filme tão reflexivo quanto ousado, atacando temas que valem longas discussões sérias entre os adultos. O setup parece batido, construído sobre mais uma explicação de como o Papai-Noel consegue entregar presentes para duas bilhões de crianças em uma noite. E, sim, a explicação é igualmente clichê: ele é um Papai-Noel moderno, com todo tipo de aparato tecnológico possível para realizar a (ainda impossível) tarefa.

Fiquemos apenas neste aspecto raso. Embora a Aardman não comece com nada de novo, não consigo me lembrar de filme algum que executou um conceito tão brilhantemente como “Operação Natal”. As operações natalinas do Pólo-Norte não são apenas uma seqüência incompreensível de exibicionismos tecnológicos, como se os produtores jogassem uma porção de entulhos high-tech na tela e se dessem por satisfeitos (“olhem, crianças, é um Natal moderno e tecnológico, ho, ho, ho!”). O ambiente não é apenas um pano de fundo; é o coração ao redor do qual todos os elementos do roteiro são erguidos. Além do claro efeito humorístico nonsense, o resultado é um espetáculo visual que fascina e intriga. Há uma incrível plausibilidade em toda a grande operação natalina do filme, mesmo que, no fundo, a missão continue sendo impraticável (quero ver como eles fazem para distribuir presentes em uma cidade como Chicago ou nas favelas de São Paulo). A atenção aos detalhes sempre foi um imperativo na Aardman, e aqui ela está presente na construção e no funcionamento do imenso Trenó-Espacial (o S-I, uma versão vermelho-escarlate da Enterprise), na base de operações dos elfos (impressionam as dimensões do cenário), nos gadgets dos mesmos e nos processos em que eles, fazendo o agente Ethan Hunt parecer uma garotinha despreparada, entregam os presentes sem serem notados. Nas habilidosas mãos destes cineastas ingleses, voltam a ser hilárias as interpretações “tecno-modernosas” de alguns mitos natalinos (os elfos têm um termo militar para tudo – por exemplo, uma criança que acorda no momento de uma entrega é um “Waker”) ou as mais realista de outros (o trenó original, Eve – uma mistura perfeita entre modernidade e tradição).1

Quem dera que isso fosse tudo que o filme pudesse oferecer. Quem dera mesmo, pois não é fácil resumir a surpreendente complexidade de sua história, que escala até o ponto de ser uma das mais completas e honestas reflexões “filosóficas” sobre a era contemporânea. Ok, vamos por partes: tudo começa quando, após mais uma operação “bem-sucedida”, descobre-se que um dos presentes foi esquecido – o único esquecimento no meio de dois bilhões. Isso gera um impasse na “cúpula Noel”: o Papai oficial, um velhinho desajeitado de 70 anos, é inseguro e fica conflitado entre o dever de entregar o presente e a praticidade da operação. Steve, seu provável e militaresco sucessor, segue a última interpretação e se recusa a reiniciar as operações apenas por um mísero presente. Arthur, o pária desastrado da família, é o único que defende a entrega, mas seus apelos caem em ouvidos surdos – exceto nos do Vovô Noel, o antecessor de 136 anos do atual Papai Noel, que concorda em entregar o presente apenas para rever seus dias de glória e provar que seu método de entregas (tradicional, “casa por casa”) é o mais correto.

“Operação Presente” parece uma forte crítica contra o cinismo, o utilitarismo e perfeccionismo mecanicista modernos. Nele, as operações natalinas se transformaram em uma obrigação industrial tão incontestável que, quando as pessoas não se rendem a ela a contragosto (o Papai Noel), ou são velhas resmungonas que só vivem cantando as glórias dos “tempos de outrora” (Vôvo Noel) ou são simplesmente irrelevantes (Arthur). O representante supremo desta nova ordem é Steve, o militar ultra-eficiente sem o menor tato com crianças e que jamais se refere a elas pelo nome, mas pelo seus “códigos de entrega” (irônico para quem aspira a ser Papai Noel). Inúmeras vezes o “espírito de Natal” é zombado no filme (“Arthur, o Natal não é uma época de emoção!” / “Se todos nós vivêssemos pelo espírito de Natal, seria o caos!”) – afinal, essas ideologias não são produtivas – e o mais chocante (isso mesmo, chocante) é como quase todos os personagens tratam as crianças como meros números. É constante o argumento de que uma criança é insignificante demais para causar alarde, ou que o problema pode ser facilmente resolvido em “questão de dias” (ao custo, mais uma vez, da magia do Natal, bem como dos sentimentos da mesma). Por trás do humor, é incrível a cena em que o elfo-ajudante de Steve justifica ignorarem a criança pelo “percentual de eficiência da missão”, que só seria danificado em 0,00000001514834% (tive que repetir o trecho quatro vezes para entender o número). A perda do valor humano em face à sua “quantificação” é um tema antigo e dolorosamente atual – o mais recente exemplo, e o primeiro que me veio à cabeça, foi o resenhado pelo crítico de cinema Pablo Villaça sobre o tiroteio na sessão de “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (clique aqui para ler).

Contra todos estes ditados modernos se ergue o Vovô Noel, mas não de forma saudável. Apesar de sua personalidade irresistível (ele é um “velhinho radical” feito de maneira certa), seu discurso é aquele mesmo de tantos da ala mais extrema (e brega) do conservadorismo: tecnologia é uma besteira e tudo feito no seu tempo (à moda antiga) é melhor. Assim como Steve, ele é cego e egoísta (ou cego pelo egoísmo?), resolvendo ajudar Arthur apenas para provar seu ponto. Filmes menores sempre caem em extremos quanto à moralidade, demonizando ou um ou o outro lado da moeda. Seria fácil para “Operação Presente” desprezar a tecnologia e ter Vovô Noel como herói (e, até boa parte do primeiro ato, é o que parece), mas ele mostra o quanto o apego ao passado pode ser danoso, visto que quase toda a confusão em que Arthur se mete é graças à insistência do Vovô em guiar o trenó com uma tecnologia ultrapassada (o que também rende “esquetes” hilárias, como Arthur “se passando” por E.T. ou o grupo aterrissando em uma cidade mexicana).

Arthur, como é de se adivinhar, é o idealista boboca pelo qual ninguém dá um tostão. Ele, claro, termina como o mais correto de todos: seu idealismo, sua crença no “espírito do Natal” (interprete como uma metáfora a todos os grandes valores que já ignoramos: a dignidade humana, a bondade, a compaixão, etc.) e sua lealdade inquebrável aos princípios lembram-me da devoção do robozinho Wall-E a Eva. É absurda a quantidade de problemas que ele enfrenta apenas para entregar um presente a uma mísera criança! Tudo chega a um ponto tão crítico (pode ser engraçado, mas se o filme não fosse comédia, seria desesperador) que somos tentados a pensar por que ele simplesmente não ignora a criança. Afinal, é só uma criança! Ele chega a (literalmente) pôr a ordem global em risco apenas por ela! Arthur talvez seja muito coração para pouco cérebro – e é por isso que ele equilibra bem uma balança já tão pendida para a frieza e o calculismo.

A gradação dos problemas de Arthur, de um simples presente esquecido até o pânico global, lembrou-me do ato final de “O Estranho Mundo de Jack”. É tudo tão louco e propositalmente over-the-top (como uma incrivelmente similar cena onde militares tentam abater o trenó alado) que arranca o fôlego do espectador. A montagem do filme, por mais delicada que seja sua mensagem, é ligeira e chega a alternar entre três ou quatro cenas simultâneas com a velocidade de um filme de ação em fast foward. É claro que ele sabe quando ficar quieto quando precisa (a longa seqüência em que Arthur perde momentaneamente a fé no Natal é linda, assim como a entrega final do presente), mas quando apressa o ritmo, é uma jornada gloriosa que ninguém consegue (nem deseja) frear.

Igualmente ágil é o timing cômico. Que posso dizer? Embora não seja uma torrente infinita de humor (“South Park: Maior, Melhor e Sem Cortes”), ele me fez me contorcer em risos com suas sacadas brilhantes (a cena entre Steve e um menininho mexicano vale ouro). Como sempre, o destaque vai para os figurantes. Quem conhece a Aardman sabe que, quando se trata de humor, o melhor do bolo quase sempre vem dos figurantes: em “Wallace & Grommit: A Batalha dos Vegetais”, eram os coelhinhos; em “Por Água Abaixo”, eram as lesminhas (“Tristeee / é tão tristeee / quando não existeee / nenhum amooor, OOOOOR!”). Aqui, são os elfos: eles são hiperativos, workaholics, paranóicos e falam com vozes fininhas e agitadas. 2 Pronto! As piadas praticamente se escrevem sozinhas!

Como disse, “Operação Presente” eleva o humor da Aardman a um novo nível. Por trás da obviamente ridícula situação jaz uma mensagem tão cativante que, do segundo ato adiante, o espectador passará o tempo inteiro com lágrimas nos olhos. Este é um filme impiedosamente bonito; é sua missão declarada dobrar o coração do mais cético dos homens (“Natal?! Pff! Data ridícula!”) e fazer com que toda a audiência saia da sala engrandecida e levitando de felicidade. Este efeito só é conseguido, repito, pela dimensão de sua moral. A história também abarca como elemento central o conflito familiar: Arthur, Steve, Papai e Vovô Noéis (?), todos estão em conflito, e a maneira com que “Operação Presente” consegue dar-lhes todos um final feliz é brilhante, pura e simplesmente. De novo: acho notável como a produção desvia de armadilhas em que tantos outros filmes menores cairiam, como a tentação de fazer de um dos familiares um vilão (Steve, pela inveja, ou Vovô Noel, por suas convicções quase autoritárias).

Claro, ele é tudo menos livre de defeitos. Um particularmente grave envolve uma quebra de lógica bem simples: no primeiro ato, Steve usa como justificativa para não entregar o presente em sua “super nave” o fato de que ela voou demais e pode falhar; entretanto, poucas horas depois, ele voa com ela por um trecho ainda maior (ele erra o caminho) sem apresentar o menor contratempo. Achei sagaz como o roteiro não ignora as trapalhadas de Arthur e Vovô Noel no trenó “Eve”, mostrando que elas foram notadas pelos sistemas de segurança do mundo todo e causam alarde geral. Entretanto, o mesmo cuidado se esvai quando o super trenó sobrevoa por uma cidade inteira para bloquear-lhe o Sol, não sendo notado nem pelos militares que vigiavam intensivamente a área. Também, o filme parece comprar mais briga do que pode manejar: algumas situações se tornam tão impossíveis que a única solução para dar seguimento à história é o deus ex machina (como a improvável cena de Arthur & Cia. no meio do oceano Atlântico), o que quebra a fluidez do roteiro.

Como todo filme natalino, “Operação Presente” é uma exaltação da bondade e uma obra feliz por natureza. É em sua moral, seu humor e sua ousadia que ele se destaca dos demais incontáveis exemplares do gênero. Não tivesse a Aardman (novamente) baixado o nível com o pouquíssimo excepcional “Piratas Pirados!” (sério, Brasil, que raio de título é esse?!)3, “Operação...” seria o indicador de uma nova era de altíssima qualidade narrativa e técnica na empresa (aliás, a arte da animação é impecável: note como a textura dos personagens, e a dos elfos em especial, faz com que eles pareçam feitos de porcelana). Aqueles que não saírem com lágrimas nos olhos quando subirem os créditos (feitos, ironicamente, num estilo rápido e pouco emotivo) ao menos experimentarão uma intensa, ainda que momentânea, leveza de espírito.

NOTA: 9,0

1 Céus, a primeira fala do filme já dá uma idéia do tom cândido, mas bizarro, que encontraremos pela frente: “Querido Papai Noel, se o senhor vive mesmo no Pólo Norte, como é que eu nunca encontro sua casa quando procuro no Google Earth?”;
2 Usualmente, essa seria a fórmula para personagens muito irritantes. Mas confie na Aardman – ela sabe o que faz;
3 Não que o original – “Pirates! In an Adventure with Scientists” – fosse muito melhor, mas pelo menos não se ancorava em um trocadilho barato.

sábado, 15 de dezembro de 2012

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (2012)


Quem acessou este texto já deve ter uma idéia bem firme do seu objeto de análise, então dispenso quaisquer introduções. Se antes a grande dúvida dos cinéfilos era saber o quão bom seria “O Hobbit”, agora, dadas as péssimas críticas que ele vem recebendo, a dúvida é se o filme é mesmo tão desapontador. Então: “O Hobbit” é desastre? Bom, eu não chamaria assim. É um filme bom, na verdade, e eu agüentei suas alardeadas três horas de duração (duas e cinqüenta, para ser exato, com estonteantes vinte minutos de créditos finais!) com tranqüilidade. Fiquei até com um gosto de “quero mais”, pois a última hora empolga (mas não muito). “O Hobbit” é um filme bom, razoável, mas essa é a questão, não é? Se fosse um produto independente, só mais uma tentativa de Hollywood em emplacar um sucesso “original”, ele mereceria certa aclamação. Infelizmente, não é. Estamos falando de um herdeiro de “O Senhor dos Anéis”, o mais ambicioso, épico, icônico e megalomaníaco exemplar cinematográfico de fantasia em... bem, acho que é seguro dizer “de todos os tempos”! Você conhece a história. Você conhece o franquia. E sabe que “O Hobbit” não pode ser um filme meramente “bom”. Ele não tem esse privilégio. Ou é um filme tão fenomenal quanto, ou é uma decepção absoluta. Sob este prisma, não tenho dúvida em afirmar que ele é este último.

Sim, “O Hobbit: Uma Aventura Inesperada” é um fracasso.

E o que mais dói é que todos os problemas da obra, ou a maioria, se concentram em basicamente um ponto: a edição. Sua duração (arredondemos para três horas) já é um convite ao desperdício, uma decisão desde o início malfadada. Tenho aqui, ao lado do teclado, a coletânea “de bolso” (balela: apenas um bolso para iPad pode comportá-la) de “O Senhor dos Anéis”: 1013 páginas de letras minúsculas, não incluindo as 120 páginas de apêndices e mapas. Também tenho a edição normal de “O Hobbit”: trezentas páginas com uma história leve e despretensiosa, editada com bom espaçamento e tamanho agradável de letra (excluo, novamente, apêndices e ilustrações). Ambas as obras ganharam uma trilogia de cinema, com três horas para cada filme. Faça a matemática: com “O Hobbit”, é como diluir uma xícara de café em dois litros de leite.

Acho que os “tolkianos” mais hardcore também concordarão comigo neste ponto: “O Hobbit” não só é menor como é imensamente mais simples que seu primo crescido. É uma história infantil, pelo amor de Ilúvatar! Uma ótima história infantil (Shakespeare para crianças), mas sem jamais justificar uma empreitada nessas dimensões. As três horas que Jackson dedica às primeiras cem páginas seriam mais do que suficientes para contar a história inteira, se o diretor não tivesse perdido (ou negligenciado) o divino dom da concisão. Sim, “Uma Jornada Desesperada”... digo, “Inesperada”... é fruto de um diretor que recebeu dinheiro demais e supervisão de menos, muita liberdade e pouca - se é que alguma - oposição. O passado está cheio de exemplos do quão desastroso isso pode ser. Cimino que o diga.

Jackson, o Deus, já mostrou em seu filme anterior (o incompreensível e desnecessário “Um Olhar do Paraíso”) que podia sangrar. Aqui, ele retorna ao patamar de “mortal”. Uma pena. Mesmo: devo lembrar que o diretor é um dos meus mais queridos e uma de minhas maiores inspirações de vida. Alguém que dirigiu produções com orçamento inexistente e se tornou um dos mais influentes senhores de Hollywood. O título “A WingNut production” que hoje sobe nos créditos iniciais de “Uma Jornada...”, esse gargalho de 230 milhões de dólares (quase o valor da trilogia “O Senhor dos Anéis”), é o mesmo que subia nos de “Bad Taste” - um filme ruim, mas cheio de energia. Mas a tentação do sucesso e do dinheiro, assim como a do Um Anel, corrompe e desfigura. Aqui, Jackson está mais para um Gollum solitário e deprimente do que o gênio que adaptou a mais inadaptável das obras.1

É furada a explicação de que a trilogia é necessária por causa dos apêndices inseridos na narrativa, e por um motivo óbvio: poucos deles contribuem de fato à trama. O roteiro pode apenas inseri-los nos diálogos para incrementar a mitologia e o maior efeito será o de provocar orgasmos nos fãs mais assíduos.2 Enfim, nenhuma utilidade prática. Como Jackson continua um bom diretor e as cenas, individualmente, são bem escritas, o que resta em “Uma Jornada...” é mais inútil do que cansativo: os personagens cantando baladas da Terra-Média, narrações inteiras tiradas do livro, trolls tentando cozinhar, flashbacks forçados e infinitos establishing shots que funcionam como a mais cara propaganda turística do mundo.

Jackson preocupa-se tanto em entulhar o filme que despreza a elegância do produto final. O roteiro é burocrático e abusa do diálogo expositivo, parecendo trabalho de um amador! Lembram-se do momento mágico que foi a abertura de “A Sociedade do Anel”? A narração misteriosa e suave de Galadriel sobre uma montagem minimalista, cuja maior extravagância foi a batalha contra Sauron? Ainda a considero uma das aberturas mais poderosas do cinema, então vocês podem imaginar (e irão sentir!) a minha dor ao ver a forma horrível com que “Uma Jornada...” é iniciada: dez minutos com uma narração ininterrupta de Martin Freeman detalhando uma cena que, no fim das contas, nem era tão necessária assim. Em “O Senhor dos Anéis”, flashbacks e referências eram executados através de cortes rápidos ou somente por diálogos. Aqui, com todas as bênção de um orçamento tão generoso quanto o tesouro de Smaug, eles ganham cenas inteiras! A batalha dos anões contra as hordas de Azog, o Orc Branco (um vilão genérico) e o encontro de Radagast com o Necromante são ótimos materiais para extras de DVD, mas não para o lançamento comercial. Precisávamos mesmo de uma cena inteira sobre trolls discutindo culinária? Ou sobre Gigantes de Pedra que se digladiam sem motivo algum (Síndrome de Transformers)? Ou sobre anões lavando louças?

“O Hobbit” é um livro infantil (o que já faria dele um filme leve mesmo se Jackson o tivesse resumido a um único exemplar), mas “Uma Jornada...” beira o infantilóide - boboca mesmo. Há quem o compare com “A Ameaça Fantasma”, e por vezes o próprio diretor insiste na comparação: o mago Radagast é uma versão mais tolerável de Jar Jar Binks, e muito mais útil (ora, ele ao menos salva os protagonistas); o Rei dos Goblins é um monstro falante de voz afeminada e afeito a piadinhas cujo físico parece cópia de Rugor Nass, o rei dos Gugans. Ao retratar a transformação da Floresta Negra, Jackson apela e faz do filme uma programação “Discovery Kids”, mostrando animaizinhos fofinhos morrendo enquanto Radagast, ele mesmo um personagem cartunesco, tenta curá-los.

Só resta ao filme uma retórica desesperada. Tenta-se, sem sucesso, transformá-lo em algo mais épico que é, e isso rende um bocado de momentos “vergonha alheia”. Se em “A Sociedade do Anel”, a descoberta (pelo público) de Valfenda foi um evento mágico, aqui ele é cafona: Jackson passeia com sua câmera pelos mesmos cenários como se fosse a primeira vez, crente de que o público sofreu um ataque de amnésia, enquanto Howard Shore nos ataca com uma trilha que faria a de “O Cavalo de Guerra”, de John Williams, parecer sutil. É de uma breguice sem tamanho! O pior momento é quando, numa tentativa óbvia de recriar os grandes duelos de “O Retorno do Rei”, o anão Thorin se enfrenta com seu arquiinimigo Azog. Tudo em câmera lenta, claro, ao som de uma trilha repetida, enquanto os demais personagens observam em forçada estupefação. Lembrei-me instantaneamente dos velhinhos marinheiros de “Battleship”, assumindo o controle do navio-título e “salvando do dia”. Ainda estou corado de vergonha.

Para adicionar insulto à injúria, mesmo o resplandecer técnico que fez o nome de Jackson e de sua trupe está apagado, na melhor das hipóteses, ou profanado, na pior. Em “O Senhor dos Anéis”, Jackson equilibrava efeitos de primeira com um orçamento controlado, o que dava lugar para muita improvisação. Havia muito CGI, mas também muita maquete, muito trabalho feito à mão, “na tora”. Era o cinema corajoso e experimental, permeado pela maravilhosa cultura do “se vire”. Em “Uma Jornada...”, Jackson piora o que havia começado em “King Kong” e converte o filme inteiro em um programa de computador, no ponto em que eu me peguei pensando se não seria muito mais fácil, barato e conveniente transformá-lo logo em uma animação! A plástica intensiva de CGI a qual “O Senhor dos Anéis” é submetido deixa irreconhecíveis alguns elementos icônicos: por exemplo, quem são os orcs deste filme?! A maquiagem estupenda da trilogia anterior dá lugar a corpos inteiramente digitalizados, transformando-os em klingons! O Orc Branco parece um cruzamento entre o Engenheiro de “Prometheus” e Voldemort!

No quadro geral, embora haja virtudes a serem louvadas (a atuação de Martin Freeman, que mistura Steve Buscemi e Woody Allen em seus trejeitos), “Uma Aventura...” é um enredo estendido ao ponto de ruptura. Quase nenhuma situação, por mirabolante que seja, contribui para a trama central (a Comitiva tentando reconquistar Erebor): a visita a Valfenda, o confronto com os goblins e com os orcs, tudo deixa um gosto amargo de tempo perdido e explica a incapacidade da obra em emplacar uma única cena memorável (o encontro entre Bilbo e Gollum não se sobressai por méritos próprios, mas pela inevitável carga emocional deste último personagem, o mais icônico de toda a mitologia “Tolkiana”3). “Uma Jornada Inesperada” é melhor resumido em uma simples pergunta, e a que todos se farão quando surgirem as palavras “Directed by Peter Jackson”: isso foi mesmo necessário?

A resposta é óbvia.

NOTA: 6,0

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Notas Finais: o 3D e o 48fps

Não bastasse o inchaço do roteiro, “Uma Jornada...” é uma overdose de tecnologia. Peter Jackson é como uma criança a quem permitiram comer todos os doces de uma loja: ele se esbalda! Fui forçado a assistir ao filme em 3D, pois os cinemas de minha cidade não receberam cópia “normal”. Que posso dizer? Quanto mais vejo esta tecnologia, mas a odeio. Costumo tirar os óculos durante a sessão tanto para aplacar a irritação dos olhos quanto para calcular a luminosidade perdida. Não bastasse ser inútil (costumo dizer que o único momento impressionante com 3D são as logomarcas das produtoras), a tecnologia suga ao menos 50% da luminosidade e encarece o valor do ingresso na mesma porcentagem. Para um avarento inveterado como eu, pagar mais por um truque barato e infantil que só empobrece a experiência e dá coceira nos olhos é enlouquecedor!

Sobre o modelo 48fps não posso discorrer muito. Não há salas adaptadas em minha cidade e o máximo sobre o que posso opinar é com base neste trailer divulgado na internet: http://www.48fpsmovies.com/The_Hobbit_An_Unexpected_Journey_Trailer.mp4. Sim, o formato parece estranho e desagradável. Parece que entramos no set e estamos lado a lado com os atores. Infelizmente, isso está longe de ser bom: o 48fps mata a suspensão da descrença e, por mais que queiramos, não conseguimos acreditar no que vemos. Não sei se, após uma hora ou duas, nosso olho se acostuma ao formato - pelo que dizem, parece que não.

Tudo indica que o 48fps fracassará. Todas as inovações do cinema, a despeito de algumas vozes contrárias, foram recebidas com excitação e não demoraram em se tornar regra. Foi assim com o som, com as cores e com o IMAX. O 48fps segue caminho inverso: a maioria esmagadora desaprovou (quando não detestou) o resultado e apenas alguns escolares do cinema o defendem. Não se surpreenda, portanto, se a nova trilogia de Jackson for seu único exemplar.


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Anotações

1 Estou sendo hiperbólico;
2 Há cenas, como a reunião entre Gandalf e Saruman, retiradas dos apêndices, mas elas só divergem a atenção e diluem a já frágil trama central;
3 No âmbito do cinema.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Último Tango em Paris (1972)



É estranho olhar para trás no tempo e perceber como o “Último Tango em Paris” conseguiu se meter em tamanha confusão. Seus defensores, coitados, tinham que se esforçar para conseguir voz no meio de uma multidão tão louca que parecia saída da Idade Média. Esse foi um filme que fazia, conforme relatos, damas mais sensíveis saírem vomitando e chorando das salas de cinema. Várias tentativas de censura foram levantadas em todo lugar onde era exibido; quando falhavam, multidões inteiras iam às portas das sessões em protesto e boicote. Os conservadores e religiosos o tinham como uma profanação sem limites. As feministas o consideravam uma peça ultrajante à imagem da mulher. Os críticos o atacavam como “pornografia disfarçada de arte”. Era uma bagunça!

Mas o tempo, o melhor justiceiro de todos, fez seu trabalho - e as bilheterias também. A obra mais polêmica de Bernardo Bertolucci foi um sucesso, atraindo as mesmas multidões jovens que antes tiveram o gostinho da rebeldia em filmes como “Laranja Mecânica” ou “M*A*S*H” (ainda eram anos herdeiros dos hippies, então a experimentação continuava em alta). Mas o filme não envelheceu tão bem quanto deveria, pelo menos em seu aspecto chocante. Embora quase todo mundo ligue seu título a propriedades não-culinárias da manteiga, poucos são os que de fato viram a cena. “Último Tango em Paris” entrou para a vasta categoria de filmes que todos dizem conhecer, mas que só poucos viram.

Sua ferocidade sexual é o elemento que definitivamente não envelheceu bem. Se o filme é um “pornô-arte”, tornou-se um pornô soft: em quase nenhuma das cenas de sexo vemos os dois personagens nus. Quando estão, são em momentos de linda intimidade, nos quais a arte de Bertolucci funciona maravilhosamente. Os atos em si são poucos e rápidos, e memoráveis não pelo sexo, mas pelo tratamento bizarro que o roteiro lhes dá (falaremos disso adiante). Desconfio que nenhum espectador moderno veja nessas cenas o ultraje que os cidadãos dos anos 70 viram. Se “fator-choque” era importante para a obra, hoje ele se perdeu diante da insensibilização da sociedade perante o sexo. As maiores perversões de Brando com Schneider podem ser vistas sem problemas nas categorias mais leves de certos sites na internet (if you know what I mean)1.

O bom é que o impacto do sexo não é tão importante como os exagerados “setentistas” diziam. Se o tempo corroeu esta camada mais frágil, seu firme lado atemporal continua a impressionar. Talvez tenha até ganho um novo significado, embora eu não saiba dizer se tão bom ou eficiente como quando o sexo ainda era espantoso. A filosofia geral do filme, ou pelo menos a mais facilmente extraível, é sobre a natureza das relações humanas. Bertolucci e seus colegas de script tentam desconstruir as bobagens idealistas sobre os relacionamentos (encarnadas no insuportável noivo de Jeanne, Tom) e mostrar a realidade através de uma psicologia inversa: das coisas mais asquerosas e brutas podem sair relações mais honestas. A intimidade entre Marlon Brando e Maria Schneider é absoluta: se, na superfície, ela sempre parece a ponto de se esfacelar (o que acontece no final - será?), é claro que ela é o que o filme trás de mais profundo e sincero (com Jeanne declarando Paul como seu príncipe encantado).

Do outro lado - eu tenho que falar sobre ele! - temos o aspirante a cineasta e grandioso pseudo-artista Tom. “Último Tango em Paris” se equilibra perigosamente na delicada linha entre “sensibilidade artística” e “cafonice exibicionista”, e é com Tom que ele descamba para a segunda. O personagem é insuportável e suas ações, assim como as de todos que interagem com ele, são claramente irreais. Pergunto-me qual seria o título do “filme” que ele estava realizando: “O Documentário mais Intrusivo e Desinteressante da Terra”? 3 A cena em que ele vê (e grava) sua noiva com os vestidos do casamento, para depois sair cantarolando (e tendo chiliques de cineasta) no meio da chuva, está entre os momentos mais patéticos que eu já vi em um filme. Eu objetava contra essas cenas no início, até perceber que não havia como elas serem sérias. Bertolucci está sendo deliberadamente tosco a fim de denunciar o superficialismo romântico e, mais além, a afetação de muitos “artistas” de sua época (como será que ele se sente hoje?). É uma pena que eu não tenha percebido isso mais cedo, senão passaria as cenas com a despreocupação que elas merecem.

Em contraste, temos os diálogos pesados de Jeanne-Paul, numa relação de constantes recaídas passivo-agressivas. Uma hora, temos Paul revelando (?) detalhes de seu passado; noutra, o vemos sobre as costas da garota, fazendo sexo anal com uma crueza que remete ao estupro. Jeanne sofre física e psicologicamente nas mãos de Brando tanto quanto sente prazer, e fica no ar a questão de se este sofrimento superou o prazer no final. Transitar entre as cenas de Tom e essas é como caminhar em uma praia rasa e de repente afundar em um imenso declive. Ainda que o filme não seja muito sutil nesses choques térmicos (Tom é irritante demais para que o elemento “intencional” o redima completamente), algumas transições mostram o lado jocoso de Bertolucci. A melhor fica com Jeanne e Paul recitando os próprios nomes como dois animais, até que se corta para um pato grasnando no parque, onde nosso insignificante cineasta atormenta a noiva.

Os diálogos são onde o roteiro atinge um ponto de Iluminação. Esses, sim, são capazes de chocar e de fazer rir, independente da época em que são assistidos. Os insultos que Paul dirige à sua companheira são divertidíssimos, os bate-bocas entre ambos (com ele sempre vencedor) são rápidos e espertos e as peripécias do homem rendem grandes linhas como “comer c* de rato com maionese”. Suas provocações escatológicas, como no fisting que ele pede a Jeanne, essas sim são pesadas e ultrajantes. Senti pena da garota ao vê-la confessar que, por ele, comeria m*rda de porco e depois sugaria o ânus flatulento do animal morto. Até essa última linha foi difícil de escrever...

O que nos leva à pergunta: seria “Último Tango em Paris” machista? Jeanne, a partir de certo ponto, parece mais uma prisioneira em severa Síndrome de Estocolmo, o que leva ao final trágico e a sua parcial loucura. Ela parece odiar Brando (odeia mesmo?), mas é incapaz de se desfazer dele, e consente com suas maiores loucuras mesmo com visível relutância. É óbvio que reduzir uma obra assim a rótulos será sempre de um simplismo patético e ultimamente equivocado. Apesar de certos momentos difíceis de engolir, o filme é realista (retirando o elemento de sátira de Tom, ainda que ambos se complementem). Embora sua história sem dúvida possa ter chocado o forte movimento feminista da época, o Séc. XXI a vê com outros olhos. Podemos observar com mais clareza que não há nada de anormal na relação Brando-Schneider. Em uma era onde as mulheres saíram vitoriosas (pois é, rapazes, está na hora de jogarmos a toalha), onde elas parecem as melhores e mais qualificadas trabalhadoras e senhoras absolutas de sua sexualidade (os homens ainda são patinhos atrapalhados no quesito), o que o filme faz é desnudar o calcanhar de Aquiles por trás dessa força. Sem querer entrar em teorias evolutivas, o fato é que as mulheres sofrem mais quando encontram seu “verdadeiro” homem: aquele senhor forte, confiante e independente (e raro) que está sempre acima das seduções femininas. É um termo-comum não muito incorreto que essas relações terminam com a mulher cedendo, ou pelo menos em uma posição de dependência para esse espécime masculino tão raro. O conflito de Jeanne é o conflito de todas as mulheres apaixonadas: não podem continuar com um homem tão instável, mas não querem largar o que talvez seja a única fonte de sincero prazer e aventura que terão na vida.

O mundo está cheio de Jean-Pierre’s e de pouquíssimos Marlon Brando’s. E não há nada pior para uma mulher do que perder o aventureiro bad boy para insípido cara legal.

E vamos logo dedicar ao diretor o seu merecido parágrafo: Bertolucci existe para nos lembrar da diferença entre uma ótima direção e uma genial. Os melhores momentos do filme são quando a câmera do diretor passeia pelos cenários, construindo um espetáculo sempre imprevisível. Muitas são as horas de silêncio, puramente visuais, e o diretor as conduz com destreza hipnótica e foco violento: veja quando Paul se retira do quarto da mãe de sua ex-mulher após a violenta discussão. Segue-se um ritual de sombras sincronizado por um tenso abrir e fechar de portas. O melhor de Bertolucci é visto quando Paul e a dita mãe estão frente a frente, sérios e tensos. A câmera executa um zoom lento que ultrapassa os personagens e foca o espaço vazio entre eles. A discussão segue em off. Então, a mãe caminha para o centro da tela e apenas chora. O resto é silêncio.

Tal condução de cena não é ensinada em lugar algum: não faz parte de nenhum manual de direção nem pode ser copiada. Ela é pura criação. Ela brinca com o irracional (ultrapassar os personagens com o zoom) e depois choca o espectador com uma beleza construída fora de quaisquer regras fílmicas, as quais Bertolucci faz constante questão de quebrar. Eu poderia assistir a obra sem som algum e as imagens sozinhas ainda valeriam a experiência. Bertolucci é louco, louco!

Numa visão geral, o filme deixa certas coisas a desejar. As cenas de Jean-Pierre (Tom), mesmo com toda a intencionalidade, são por vezes difíceis de engolir, assim como muitas situações entre Paul e Jeanne (nem mesmo o magnetismo animal de Brando pode explicar o primeiro encontro entre ambos). As reflexões sobre o tempo e as relações sentimentais seriam mais bem aproveitadas se o roteiro não tropeçasse vez por outra na transição entre cenas (as de Paul-Tom e amor-sexo são, muitas vezes, choques que quebram a concentração). Não é uma obra que o irá arrebatar de primeira vez, mas que cresce com contínua reflexão. E você irá refletir sobre ela, se irá - esse é dos filmes que não saem da cabeça tão cedo.

NOTA: 8,0

1 Well, of course you do!
2 Bom, ele é francês, então não é de se impressionar.